Vestuário e calçado à procura de oportunidades em Angola

NOTÍCIA ANIVEC pelo DINHEIROVIVO.PT

Secretário de Estados da Economia e presidentes da ANIVEC e da APICCAPS com entidades locais e estilistas na Luanda Fashion Week © Direitos Reservados


Missão empresarial da ANIVEC e da APICCAPS visa o estabelecimento de parcerias locais para o desenvolvimento da fileira têxtil e da moda em Angola


As indústrias portuguesas de vestuário e calçado estão apostadas em estreitar relações com o mercado angolano, ajudando, designadamente, ao desenvolvimento industrial do país. A segunda edição da Luanda Fashion Week, que associou designers angolanos a empresas de matérias-primas e acessórios portugueses, "foi um sucesso" e está já definido que, em 2023, a iniciativa será reforçada com a presença de empresas portuguesas e estilistas em Luanda.


A prazo, o objetivo é "investir em unidades industriais em Angola, em parceria com entidades locais, sendo que a formação profissional será um dos pilares a desenvolver", admite César Araújo, presidente da ANIVEC. Já o secretário de Estado da Economia refere que se trata do "início de um caminho" e que "não podemos ter a veleidade de pensar que vamos obter resultados no curto prazo".


"Reconhecemos que Angola poderá ser um parceiro forte no futuro da têxtil, do vestuário e calçado. Viemos lançar a segunda edição da Luanda Fashion Week, que decorreu de quinta-feira a domingo, e que se revelou um enorme sucesso. Queremos apoiar o desenvolvimento destes três setores que são fundamentais em Portugal mas que também podem vir a ser, no futuro, fundamentais em Angola", explicou ao Dinheiro Vivo o responsável da ANIVEC. Calvelex, Lameirinho, Vandoma e Nau Verde, que representa a Riopele, a Polopique e a Paulo Oliveira, são as empresas que acompanharam a ANIVEC nesta missão empresarial, que termina dia 1 de novembro.


César Araújo garante que isto não representa qualquer intenção de deslocalização da indústria de vestuário nacional, mas antes a vontade de "aumentar a capacidade de produção para servir África e outros clientes que, pela via do preço, não conseguimos fazê-lo em Portugal". A escolha por Angola deve-se ao facto de ser "um país irmão, que fala a mesma língua e que tem um povo afável e trabalhador", tendo sido selecionado pelo Plano Estratégico da Anivec para ser apoiado na industrialização da têxtil, vestuário e calçado.


Um caminho que começará agora a ser trilhado. "Vamos trabalhar, em conjunto com organismos do Governo de Angola, para o desenvolvimento da formação profissional dos recursos humanos locais para que possam dar apoio nas fiações, nas tecelagens e na confeção", admite o empresário, sublinhando que o objetivo é ter esta oferta disponível nos próximos dois anos. Segundo os dados oficiais, existem em Angola cerca de 300 unidades industriais na fileira têxtil.


Já o secretário de Estado da Economia, que acompanha a missão empresarial a convite das duas associações, destaca o potencial do mercado angolano e as oportunidades de colaboração entre os dois países, designadamente ajudado à diversificação industrial pretendida pelo Governo local. "É o início de um caminho. Não podemos ter a veleidade de pensar que a partir de uma visita como esta vamos ter logo resultados no curto prazo, apesar de eu ter sentido que já há coisas a mexer da parte de várias empresas", diz João Neves. Este responsável lembra que existem já vários investimentos na área têxtil e do vestuário em Angola de cidadãos portuguesas radicados no país há longo tempo, projetos que as empresas portuguesas podem ajudar a que "tenham mais produtividade".

"Há algumas dificuldades do ponto de vista da utilização de equipamentos e alguma falta de mão de obra especializada em alguns domínios em que temos particulares conhecimentos e isso pode ajudar-nos a ter presença neste mercado que é pequeno, com potencial", defende.

Para João Neves, não faz sentido que Angola seja visto, apenas, como um mercado de destino das exportações nacionais, mas sim que sejam aproveitadas as valências de alguma indústria a renascer para produzir localmente. "Não é uma lógica de deslocalização de atividades de Portugal para Angola, até porque não nos parece haver conhecimento e sofisticação da produção que seja interessante, é vir para cá numa perspetiva de colaboração para a criação de uma indústria mais consolidada e produtiva, aproveitando um mercado nascente que aqui existe", afiança. A médio prazo, mo projeto poderá passar até pelo aproveitamento das potencialidades no país na produção de matérias-primas, designadamente de algodão.

Também a médio prazo, Portugal pretende ajudar ao desenvolvimento de estruturas de formação profissional, "um dos pontos essenciais deste percurso". Mas João Neves é perentório: "Os portugueses pretendem ser parceiros de negócio dos angolanos e abrir até caminho à presença de produtos fabricados em Angola nos mercados em que estamos presentes".

Já Manuel Carlos, presidente não executivo da associação do calçado, a APICCAPS, destaca que Angola é um "mercado enorme, que tem um PIB per capita relativamente baixo, com muito para fazer em termos de crescimento e de criação de riqueza para as pessoas, mas é um mercado em construção, com uma grande proximidade a Portugal, pelo que as empresas portuguesa podem, em colaboração com atores locais, ajudar a esse desenvolvimento". E embora não haja tradição industrial de calçado em Angola, ela pode ser criada. "Temos mil fábricas em Portugal, numa indústria diversa há sempre espaço para tudo. Admito que haja alguns empresários que veriam com bons olhos terem parcerias aqui", refere.

Em termos de exportações, 2014 foi o melhor ano das vendas de Portugal para Angola, com a indústria têxtil e do vestuário a assegurar vendas para este mercado no valor de 97,4 milhões de euros. Em 2021 foram apenas 21,6 milhões. Já este ano, e apenas nos primeiro oito meses, as exportações totalizaram 21,4 milhões de euros, mais 57% do que no período homólogo.

Quanto ao calçado, Angola valia 27,4 milhões de euros em 2014, valor que caiu para os 4,2 milhões em 2021. Este ano, e só até agosto, este valor foi já ultrapassado, com o setor a exportar calçado no valor de 4,5 milhões de euros para o mercado angolano, um aumento de 90% face a igual período de 2021.


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