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«A Sala de Corte 4.0 terá um grande impacto no mercado português»


Com uma nova versão do AccuMark lançada no mercado recentemente e uma crescente integração das soluções que fazem agora parte do seu portefólio, fruto das diversas aquisições, a Lectra prossegue a aposta na indústria 4.0, estando a desenvolver uma nova sala de corte, mais evoluída, para a confeção.




A Sala de Corte 4.0 existe, neste momento, apenas para a indústria automóvel, mas, avança Rodrigo Siza Vieira está a ser desenvolvida uma versão para a confeção, que deverá ter um forte impacto no mercado português. Em entrevista ao Portugal Têxtil, o diretor da Lectra Portugal e Espanha faz ainda o balanço do ano de 2022 e das mudanças resultantes da série de aquisições que a empresa tem feito, incluindo a Gerber, e antecipa os desafios para 2023 e para o futuro.

O que acresce esta nova versão do AccuMark relativamente à anterior?

A nova versão do AccuMark faz parte do ritmo normal de novas versões que nos permitem ir integrando os requisitos do cliente, fazer o acompanhamento das tecnologias de terceiros, etc. Além disso, corresponde também a um esforço, que já tinha sido iniciado antes, de aumentar o nível de interoperabilidade entre as nossas diferentes plataformas e, nesse sentido, permitir que o AccuMark seja totalmente compatível com as nossas soluções de marcada automática na nuvem, o Quick Nest e o Flex Offer. Basicamente hoje temos quatro soluções de CAD, as que são herança da Lectra, sobretudo o Modaris, as que são herança da Gerber, o AccuMark, mas também as que são herança da Investronica, o PGS, e o Gemini. O que estamos a tentar é respeitar as escolhas que os clientes foram fazendo ao longo dos anos e aumentar o nível de interoperabilidade, portanto, não deixar que o facto de terem diferentes soluções seja uma barreira ao trabalho entre si e, no que diz respeito às nossas novas ofertas, neste caso especificamente Lectra, que sejam totalmente compatíveis a parte de soluções de marcadas na nuvem Quick Nest e Flex Offer.

Como está hoje organizado o portefólio da Lectra face à evolução de todas as aquisições que foram feitas nos últimos tempos?

A Lectra continua a ter várias marcas, as equipas de desenvolvimento de cada um dos produtos está sob esse grande guarda-chuva que é a Lectra, mas que tem diferentes marcas. Continua a ter as suas equipas de investigação e desenvolvimento coordenadas, sob uma gestão comum, e a partilha e a cooperação entre as diferentes equipas permite que haja um nível ótimo, tanto quanto a tecnologia o permite, de interoperabilidade entre as diferentes marcas. Continuamos numa organização por mercados, trabalhando para os três mercados estratégicos – automóvel, moda e mobiliário – e, dentro de cada um desses mercados, temos ofertas específicas. Naturalmente que há sinergias nas ofertas de produto entre diferentes mercados, mas a organização da oferta continua a ser a mesma.

De que forma foi realizada a integração da oferta da Gerber na oferta da Lectra?

É trabalho em curso, claramente. Mas o que estamos a tentar fazer é que dentro do software haja compatibilidade total, mais uma vez dentro do que são as limitações de cada uma das tecnologias. Também estamos a trabalhar para que a compatibilidade entre softwares e equipamentos possa ser usada de modo transparente. Por exemplo, neste momento, há muitos clientes da marca Gerber que já estão a utilizar equipamentos da área da Vector, da marca Lectra, e vice-versa também pode acontecer. Em alguns aspetos de detalhe, já fizemos harmonização onde havia sobreposições claras. Por exemplo, só temos uma oferta de estendedores e de plotters neste momento. Excetuando o software, estamos a fazer um benchmark interno para ver quais são as soluções de futuro: se mantemos as duas, se mantemos só uma, se haverá uma solução nova e absorvemos as duas tecnologias numa única. Aí ainda está tudo em aberto, não há, na generalidade, decisões definitivas tomadas.

Quais foram as principais mudanças advindas da incorporação da Gerber?

Temos mudanças na organização e na estrutura, temos um alargamento do portefólio de produtos e, sobretudo, temos um crescimento muito significativo no portefólio de clientes. A nível mundial basicamente quase que duplicamos o número de clientes.

Quantas pessoas trabalham atualmente na Lectra Portugal?

A Lectra Portugal tem uma característica diferente: temos uma grande equipa de serviços partilhados que serve outros países. Portanto, neste momento, são 77 pessoas. O facto de termos uma equipa que é regional permite-nos, por exemplo, ter acesso a mais especialistas do que quando tínhamos uma filial com uma equipa portuguesa e isso é crítico, não só porque alargamos o nosso portefólio de produtos dentro das nossas áreas tradicionais com a Gerber, mas também entramos em novas áreas de negócio com a aquisição, já há quatro anos, do Kubix Link, depois da Retviews, depois da Neteven e, já mais recentemente, no final do ano passado, da TextileGenesis. Seria difícil gerir estas novas áreas de negócio se não tivéssemos essa capacidade de recorrermos às equipas dentro da região.

Nesse conceito de regionalização, em que mercados geográficos atua o grupo Lectra?

Temos quatro regiões: Europa do Sul e Norte de África; Europa do Norte, Europa do Leste, Médio Oriente e África; Ásia; e Américas. Cada uma destas regiões tem um presidente e depois tem vice-presidentes com as diferentes áreas operacionais que gerem. Fabio Canali é, desde o início de 2019, o presidente da região Europa do Sul e Norte de África. É uma pessoa com uma grande experiência não só dentro dos nossos mercados, mas também dentro da nossa indústria.

Que vantagens tem trazido à empresa as aquisições que têm vindo a ser feitas?

Fazia parte dos objetivos estratégicos da Lectra estar atento a aquisições com carácter estratégico. Já tínhamos iniciado esse caminho em 2017, mas conseguimos cimentar a posição que tínhamos com as duas primeiras grandes aquisições que foram o Kubix Link e a Retviews. Fizemos um arranque mais sustentado durante 2022 com a Neteven e, portanto, isso é provavelmente o nosso maior desafio. São áreas de negócio novas para a empresa. São áreas que, por estarem orientadas sobretudo a marcas e a retalhistas no mercado moda, são marginais no nosso país, mas no resto da região tivemos resultados que ficaram acima das expectativas. Portanto, cumprimos não só aquilo que era esperado, como em alguns casos, ultrapassámos e isso é um grande desafio. Não é só o facto de termos de lidar com novas soluções tecnológicas, é o facto de termos de lidar com novos clientes e com perfis de interlocução completamente diferentes e ter um mindset, nós próprios, dentro da empresa, completamente diferente. Estamos claramente a sair do que é a nossa zona de conforto, mas esse é o grande desafio da Lectra e é o seu principal pilar de crescimento. Acreditamos que é o único que pode fazer com que a empresa continue, que a sua visão de crescimento para os próximos três anos seja cumprida e, mais do que isso ou sobretudo, que a nossa ambição de, até 2030, ser, nos nossos mercados e nas áreas do nosso negócio, um parceiro estratégico da indústria 4.0.

No caso da Lectra Portugal, que análise faz do ano que acabou de findar?

Em primeiro lugar, fizemos o nosso budget em alguns aspetos até ligeiramente acima, no que diz respeito ao negócio recorrente. Esse é o primeiro aspeto muito positivo. O impacto mais negativo que recebemos foi na venda de novos sistemas na área dos equipamentos, do hardware. Não associo isso a uma baixa de desempenho, mas sim a questões da conjuntura, mesmo tendo estado a crescer durante uma grande parte do ano, no nosso principal mercado, a confeção, há uma grande incerteza que leva as empresas a retraírem-se um pouco nos investimentos. Ainda assim, tivemos um crescimento muito grande na área do software as a service (SaaS) – é um aspeto que não só contribui para o nosso negócio de modo muito positivo, mas que também se alinha com um dos pilares estratégicos da Lectra. Mesmo na área do software cumprimos o nosso orçamento e conseguimos reforçar o caminho que já tínhamos iniciado um ano antes, que é fazer com que a nossa oferta de software as a service seja um pilar fundamental na nossa oferta. Mas foi, efetivamente, um ano atípico, porque em venda de novos sistemas é muito difícil verificar se houve um crescimento direto com a integração da Gerber, mas efetivamente o crescimento não foi 1+1, ou seja, os resultados do que era a Lectra Portugal mais a Gerber Portugal não se somaram. Foi um ano atípico, que ficou aquém das expectativas, mas não associo isso ao facto de ter havido integração. Associo ao facto de ter havido anos consecutivos crescimento, pelo que é natural que a certa altura haja uma estabilização. E também houve fatores externos da conjuntura que tiveram um impacto grande na venda dos nossos sistemas. No entanto, isso não põe em causa as decisões estratégicas. De resto, se nos referirmos aos resultados da Lectra a nível mundial, no fim do terceiro trimestre houve um crescimento que é superior às duas empresas no ano anterior. As perspetivas são que, no final do ano, os resultados sejam efetivamente superiores à soma dos dois no ano anterior. Mas mais do que isso, em relação ao roadmap que tinha sido definido até ao final de 2022, os objetivos que não assentam unicamente em questões económicas ou financeiras também foram todos cumpridos. Por exemplo, temos mais clientes que aderiram ao nosso modelo de negócio de software em modo de subscrição e conseguimos ter uma oferta mais alargada em aspetos do negócio ligados à indústria 4.0. Tudo isso são aspetos que podem ter um impacto maior ou menor no negócio em termos de resultados, mas que, em termos dos indicadores que eu chamaria mais qualitativos, foram cumpridos.

Há novidades previstas na oferta da Lectra para os próximos meses?

Diria que o mais relevante é o facto de termos lançado as primeiras ofertas de Sala de Corte 4.0, neste momento ainda dedicadas em exclusivo ao mercado automóvel, mas estamos já também a trabalhar para o mercado da confeção. Está ainda numa fase de desenho de processos. A nossa visão é, uma vez que temos dados do produto e dados de máquina, integrar os dados para poder gerar informação que permita tomar decisões e ter ferramentas para operacionalizar essas decisões na gestão de encomendas, na gestão da própria sala de corte, das máquinas, dos operadores, etc. Portanto, em termos muito simples, é uma combinação de recolha de dados, análise de dados e proposta de soluções. É ainda um work in progress e temos já pilotos em curso. Mas acreditamos que a Sala de Corte 4.0 terá um grande impacto no mercado português, que é um mercado sobretudo de indústria, quando falamos do sector da moda.

As novas realidades digitais, da inteligência artificial à Internet das Coisas, são hoje a força-motriz do desenvolvimento tecnológico da Lectra?

É absolutamente natural. Uma empresa de tecnologia que não fale desses aspetos, que não invista e que não queira desenvolver soluções nesta área não faz muito sentido, porque esses são os desafios que os nossos clientes têm e que precisam de ter suporte tecnológico para eles. O que é que isso implica? Implica, antes de mais nada, uma mudança de mindset, um alargamento de competências muito grande para as nossas equipas e para os nossos clientes e nas diferentes áreas a proposta de valor é diferente naturalmente. Se estivermos a falar de uma marca de moda que queira digitalizar os seus processos, por exemplo, de desenvolvimento do produto e que utilize o Kubix Link para isso, a proposta de valor e o benefício contínuo é completamente diferente, por exemplo, de uma empresa aqui em Portugal, da área da confeção, que queira fazer as suas marcadas na nuvem ou que queira ter acesso a dados, em tempo real, das suas máquinas num dashboard. Estas soluções tecnológicas trazem benefícios diferentes para sectores de mercado diferentes e dentro de cada um dos sectores, para os subsectores também diferentes, e quase que diria que esses benefícios são analisados ao nível de cada empresa individual. Há grandes linhas nesta proposta de valor, por isso é que temos uma estratégia dedicada a cada sector de mercado e a cada área de negócio. Começámos esse caminho já há uns anos e estamos a aprofundá-lo agora.

Como perspetiva 2023 para a Lectra Portugal?

Neste momento é muito difícil ter expectativas ou fazer previsões que não sejam de curto prazo. Estou absolutamente convencido que vamos ter em Portugal um primeiro semestre bom, por causas externas e não internas. Não consigo ter a mesma segurança para o segundo semestre.

Que desafios antevê para os próximos meses?

Para a Lectra Portugal, temos direções prioritárias muito bem definidas, que têm a ver com o aproveitar todo o potencial das novas aquisições. Em Portugal, especificamente, estamos a falar da Gerber sobretudo, preparar os nossos clientes para o que será a Sala de Corte 4.0 e preparar também os nossos clientes em função do que podem ser as dinâmicas do mercado que abram portas, também em Portugal, a algum do nosso novo negócio. Sabemos que é limitado, porque não somos um país com marcas, mas acreditamos que em algumas empresas, que eu gosto de chamar híbridas, que são sobretudo manufacturing companies, mas também têm marcas ou vice-versa, seja possível aproveitar essa dinâmica para as linhas de novos negócios.

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